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A coisa

 

O nome Izabela Lavagetti aparecia na listagem dos promovidos na tela em frente a Pedro. Ele cuspiu, sentiu um gosto terrível em sua boca, algo lhe queimava de dentro para fora e ele respirava com dificuldade. Ele se encolhia física e internamente, falava o mínimo possível, no tom mais baixo que podia, quase inaudível. Em verdade, era necessário fazer leitura labial para entender o que ele dizia. Expirar lhe custava, temia que aquela coisa se espalhasse. Ao recordar o riso exagerado, não conteve a sua ira: 

 — Dentes de cavalo! — sussurrou.  

Pela manhã, acordou bem disposto, por fim divulgariam a lista dos promovidos. Se barbeou, vestiu sua melhor roupa e antes de sair tirou uma selfie que enviou para Bruna. Como chovia muito seu ônibus demorou mais que o habitual. Quando ele finalmente passou, Bruna havia visualizado a sua foto, porém nada disse. Durante a viagem, embora ele checasse o status a cada minuto, sua mensagem seguia sem retorno. Ele desejava vê-la, mas antes necessitava daquela promoção. 

Ao chegar, passou pelo portão de entrada e foi direto para o telão de notícias. Ali divulgariam os promovidos.  

A primeira a ser listada foi Izabela. Ele se lembrava bem dela: cabelos louros e curtos, pele branca como mármore, olhos verdes e um singular focinho de porco. Uma mulher alta e simpática. Ambos haviam trabalhado juntos por um curto período. Anos antes, ele se excitara ao ouvir aquele sobrenome, antes mesmo de associar o nome à pessoa. Um dia convidou-a para sair e ela não apenas riu, como, horas depois, contou a todos no bar a audácia de Pedro. Um colega lhe disse que ela gargalhava durante o relato. Esse mesmo colega contou que ela estava namorando o diretor e que se casariam em breve.

Izabela era uma daquelas pessoas que, depois de anos usando aparelho dentário, retiram-no e passam a exibir um sorriso branco e dentuço. Aquele sorriso sempre o incomodara de maneira particular. Secretamente, Pedro a tratava por dentes de cavalo.  

Colocou a mão esquerda em sua barriga e sentiu a coisa se intensificar.  

Em frente ao telão, nomes eram listados enquanto ele, Pedro dos Santos, aguardava o seu, sem sucesso. Naquela altura, bastava-lhe que algum outro dos Santos aparecesse para que ele ao menos se sentisse representado, até mesmo um de Souza serviria. Mas na lista apenas nomes estranhos apareciam. 

Ao final, viu outro nome conhecido, o de um  antigo colega de curso. Ricardo Venturini era bastante comunicativo e muito popular, também havia sido agraciado com o dom da  simpatia, embora não fosse bonito.  

Pedro retirou a mão esquerda da barriga, inspirou forte e expirou em seguida. Olhou pausadamente em sua volta e pensou como ele também poderia ser carismático não fosse a coisa que o consumia.  

Numa fração de segundos toda a sua agitação interior desapareceu. 

— Pedro Lavagetti — disse em voz alta, saindo em direção ao seu posto de trabalho.

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