— NÃO QUERO, Cecéu, por favô, por favô!
— Anda logo, Pedro! Senão seguro seu pé para elas subirem.
— Diz vó que se ela gruda, num solta — disse Roberta, enquanto se ensaboava e dava espaço para que a tia lavasse os pés do irmão.
— Só quando truveja — confirmou Maria Cecéu. Ela preparava os irmãos para a creche.
— Vai, fica onde tava a Berta. Ali elas não sobem, Ligero! — disse, dando um empurrão em Pedro, que cedeu e subiu no batente.
Ele girou o registro, sem maçaneta, e sentiu as primeiras gotas caírem do cano enferrujado. A água fria já não incomodava. Molhou-se num pulo e deu lugar à irmã.
— Isfrega bem esse pé preto — disse Maria, entregando-lhe o sabonete.
Quando Roberta saiu do banheiro, a tia apressou Pedro. Ele se ensaboava sem prestar a mínima atenção ao que ela dizia. Olhava para o ralo.
— Xami-xuga! — gritou, paralisado.
Emaranhadas em fios de cabelo unidos por uma crosta de sujeira, as sanguessugas começaram a sair do buraco que servia de ralo.
— Diacho de fossa!
Maria segurou-o, limpou seus pés e disse:
— Vô colocá só uma procê largar de frescura. — Mas o pequeno saiu correndo, tamanho pavor sentia. Ela sempre repetia aquela ameaça, descrevendo o que aconteceria caso uma sanguessuga lhe grudasse na pele: elas grudam e só saem ao trovejar. A avó confirmara a história, aumentando seu temor.
Por fim, Maria os vestiu e os deixou na creche. Os monitores colocaram as crianças para brincar, se alimentar e dormir. Entretanto, Pedro não conseguia dormir. Tão logo fechava os olhos, via o buraco e sentia uma viscosidade incomodar seus pés. Um arrepio dominava seu corpo, fazendo-o sacudir-se todo.
No meio da tarde, sua mãe passou para buscá-lo. Precisava levá-lo ao posto de saúde, onde Antônio os esperava.
— O pai te deu esse anel? — perguntou ao sentir os dedos da mãe.
Mãe e filho andavam de mãos dadas. Estelita nada disse. Há anos ela vivia amigada com Antônio.
Era semana de vacinação infantil, com muitas crianças chorando. Algumas saíam sorrindo, segurando o balão do Zé Gotinha. Eram as felizardas cujo cartão de vacina determinava apenas uma dose oral.
— O que tá escrito aqui, fi? — Estelita lhe entregou o cartão.
Pedro passou o dedo pelas linhas, fingindo procurar alguma coisa. Percebendo que o pai esperava uma resposta, abaixou o cartão.
À medida que a fila se encurtava, sua ansiedade crescia. Os gritos e o choro o angustiavam.
Quando chegou a sua vez, a enfermeira checou seu cartão de vacinas e disse que ele não precisaria se vacinar naquela campanha. Estava salvo, embora se sentisse frustrado. Ele queria um balão.
— O doutor está atendendo? — perguntou Estelita. — O menino está com uma coceira no pinto.
— Só um minuto, vou avisá-lo — disse a enfermeira.
Aguardaram quinze minutos, até que uma doutora entrou na sala.
— Tudo bem, mãe? Me chamo Ana. Estarei atendendo vocês durante as férias do doutor Marcelo. Posso ajudar?
Ao ouvir a queixa da mãe, a doutora pediu a ajuda de Antônio para que Pedro abaixasse a calça em cima da maca.
Ao ser examinado, viu que a doutora usava um anel. Ele olhou para a mãe querendo dizer algo. Mas uma coisa o conteve. Um formigamento cresceu dentro dele. Já não se ouviam choros nem gritos nas salas vizinhas.
Quando Ana finalizou o exame, Pedro quis tocar seus cabelos. Porém, foi novamente contido.
— Má, rapaiz. A isca do moleque — Antônio sorriu torto. A risada do pai o arrancou dali.
O silêncio se espalhou pela sala. Estelita estava ruborizada.
— É normal ter essa reação, acontece — disse Ana. Receitou o medicamento e explicou como administrá-lo, mas Antônio não guardou nada do que ela disse. Coube a Estelita administrar o medicamento.
Chegando em casa, Antônio replicou a cena para a família e os vizinhos.
— Ô, meu Deus, desse tamain, Pedro? — indagavam, mas ele nada dizia.
Naquela noite, o pequeno não teve dificuldades para dormir. Sonhou que Antônio chegava em casa com um anel para Estelita, ela saía de casa e ia correndo mostrar à patroa.
— Mais hoje é dumingo, mãe — observava ele, angustiado pela sensação de se afastar dela em seu único dia de folga.
Acordou com as batidas no portão. Ainda sonolento, foi ver quem era:
— Mãe, a doutora tá aqui! — gritou, alegre.
— Vamos, Pedro? — disse Ana. — Vim direto do trabalho.
Pedro a abraçou.
— Mais eu...
— Aqui não — disse Ana.
Quando olhou para trás, viu que o pai os observava.
— Paixonô — disse Antônio, rindo. Outros risos surgiram. A família inteira os observava.
Pedro ainda dormia.
Ao despertar, sentiu um gosto amargo em sua boca, dormira demais. Maria já o aguardava com as sanguessugas.
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